O distrito de Uiraponga, localizado a 41 quilômetros da sede do município de Morada Nova, no interior do Ceará, ainda convive com os reflexos da violência que transformou o local em um vilarejo fantasma no ano passado. A disputa entre organizações criminosas expulsou centenas de famílias da comunidade rural e alterou completamente a rotina da população.
O acesso ao distrito é feito por estrada de terra. Logo na entrada, o cenário evidencia os impactos do conflito: ruas vazias, imóveis fechados e poucos moradores circulando. Quem permaneceu ou decidiu retornar tenta reconstruir a rotina em meio ao silêncio e à insegurança.
O comerciante Francisco Cleto de Oliveira está entre os moradores que voltaram recentemente para Uiraponga. Dono de um dos poucos estabelecimentos ainda em funcionamento no distrito, ele afirma que decidiu retornar de forma definitiva durante a Semana Santa.
“Voltei na Semana Santa pra cá. E na Semana Santa eu vim pra ficar mesmo”, relatou.
Mesmo com o retorno gradual de algumas famílias, a praça da comunidade segue praticamente deserta, situação incomum para localidades do interior, onde o fim de tarde costuma reunir moradores em calçadas e espaços públicos.
Distrito ainda apresenta cenário de abandono
Antes da escalada da violência, cerca de 300 famílias viviam em Uiraponga. A crise começou a se intensificar em abril de 2024, quando moradores passaram a relatar ameaças ligadas à disputa entre facções criminosas.
Nos meses seguintes, a situação se agravou. Em julho, houve registros de troca de tiros na região. Em agosto, a Prefeitura de Morada Nova decretou situação anormal de emergência devido à violência. A administração municipal chegou a disponibilizar caminhões para auxiliar moradores que precisavam deixar o distrito.
A insegurança provocou também o fechamento temporário da escola e do posto de saúde da comunidade. Em setembro, grande parte da população já havia deixado Uiraponga, consolidando o cenário de abandono.
Quem permaneceu no distrito relata que a saída dos vizinhos trouxe sensação de tristeza e isolamento.
“Ficou ruim demais. Entrava nessa rua aqui, ninguém via ninguém. Nessa outra rua atrás do grupo não ficou um vivente”, contou um morador.
Segundo ele, várias ruas ficaram completamente vazias durante o período mais crítico da crise.
Facções em Uiraponga e o impacto da violência no distrito
De acordo com as investigações policiais, o conflito teria começado após a saída de um integrante de uma organização criminosa para um grupo rival, fato apontado como estopim da disputa na região.
Durante as investigações, José Wiltos da Silva Nazareno e Márcio Jailton da Silva foram presos na Operação Consorte, da Polícia Federal, que apurava crimes relacionados à lavagem de dinheiro e movimentação de recursos ilícitos.
A presença das forças de segurança e as ações policiais contribuíram para a retomada gradual de serviços públicos no distrito. A escola e o posto de saúde voltaram a funcionar, e algumas famílias começaram a retornar para suas residências.
Apesar disso, o clima de medo ainda predomina entre os moradores. Muitos evitam comentar sobre o assunto, mesmo sem identificação. O receio permanece principalmente durante a noite, quando ruas e estabelecimentos ficam completamente vazios.
O agricultor Joerbas Chaves, por exemplo, evita dormir no distrito por questões de segurança.
A rotina noturna em Uiraponga evidencia o impacto deixado pela violência. As portas das casas e dos poucos comércios abertos se fecham cedo. O movimento praticamente desaparece após o anoitecer.
Retorno gradual ocorre em meio à insegurança
Embora parte da população esteja voltando para o distrito, o processo ocorre lentamente. Moradores ainda convivem com a lembrança do período em que a comunidade ficou quase totalmente deserta.
A retomada das atividades comerciais e dos serviços públicos representa um sinal de reconstrução, mas a normalidade ainda está distante da realidade local. O silêncio nas ruas e a resistência de moradores em falar sobre o passado recente demonstram que os efeitos da violência continuam presentes na vida da população.
Mesmo diante das dificuldades, moradores que retornaram afirmam manter a esperança de que Uiraponga consiga recuperar a tranquilidade que marcou a comunidade antes da disputa entre facções criminosas.
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