Baixa presença de mulheres em cargos de liderança é resultado de um modelo patriarcal de sociedade

A consultora em desenvolvimento e liderança feminina Daniela Bertoldo afirma que a falta de representação feminina no mercado de trabalho é um problema sistêmico, ancorado em barreiras estruturais que resistem ao tempo

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Baixa presença de mulheres em cargos de liderança é resultado de um modelo patriarcal de sociedade
Lídia Muradás Daniela Bertoldo, especialista em liderança, CEO do Instituto Bert e autora do livro: "Mulheres que lideram jogam juntas"

Não é preciso ir muito longe para perceber que as mulheres vêm alcançando cada vez mais destaque em distintos setores da sociedade, em todo o mundo. A presença feminina em cargos executivos de grandes empresas, nos mais altos postos governamentais e do sistema judiciário e em esportes, até há pouco tempo majoritariamente masculinos, por exemplo, são provas disso. Não obstante o desenvolvimento apresentado nos últimas décadas, as desigualdades de gênero em âmbito profissional persistem, o que é facilmente detectável a partir de experiências pessoais e por meio de levantamentos com relação ao tema.

Em seu livro “Mulheres que lideram jogam juntas - Construa uma cultura de sororidade no ambiente de trabalho e cresça como nunca”, a consultora em desenvolvimento e liderança feminina e  CEO do Instituto Bert, Daniela Bertoldo, destaca pesquisa feita pela Catho Online, em 2021, com o título “A presença feminina tem salário mais baixos do que dos homens”, para ilustrar a manutenção da desigualdade entre os gêneros no mercado de trabalho, principalmente no que se refere a postos de alto nível hierárquico. Não obstante, o levantamento ter sido realizado há três anos, é de se esperar que os números não tenham se modificado tanto deste então.

Conforme o levantamento feito na época, apesar de as mulheres representarem a maioria da população brasileira (51,1% de mulheres x 48,9% de homens) e a maioria das pessoas com nível superior (30% de mulheres x 24% de homens), a participação delas em cargos de liderança era bem inferior à masculina. Enquanto 61% dos homens ocupavam postos de chefia, apenas 39% das mulheres o faziam. A disparidade também se refletia no salários. Para cargos iguais, homens chegavam a ganhar 52% a mais que as mulheres.

Como reflexo, as mulheres acabavam sendo empurradas para ocupações de baixa hierarquia e remuneração. A pesquisa constatou que 66% dos cargos de assistente/auxiliar eram ocupados por mulheres, que recebiam salários 8% menores do que os homens. A presença feminina também era mais sentida na função de analista - 53% deste postos eram ocupados por mulheres, ganhando salários 14% menores do que os dos homens para desempenhar a mesma função, destaca o levantamento.

Para quem ainda acha que se trata de um problema exclusivo do Brasil ou de países em desenvolvimento/menos desenvolvidos, Daniela deixa claro, no primeiro capítulo de seu livro, intitulado “Dos obstáculos às conquistas”, que não. “No contexto mundial, o ranking da revista de negócios americana Fortune revela que, entre as 500 maiores empresas dos EUA, somente 8,8% são comandadas por mulheres”, relata.

Ante a dificuldade de conquistarem melhores cargos e remuneração, algumas mulheres podem acreditar que se trata de um problema estritamente individual: falta de competência técnica ou habilidade emocionais. Para a consultora em desenvolvimento e liderança feminina, a presença desse levantamento torna evidente que se trata de uma questão mais profunda e complexa. “A falta de representação feminina no mercado de trabalho é um problema sistêmico, ancorado em barreiras estruturais que resistem ao tempo e dificultam a vida das mulheres e o alcance de seus objetivos profissionais”, afirma.

Daniela argumenta que os ambientes corporativos e tantos outros reproduzem o modelo patriarcal dominante, vigente há tantos anos, segundo o qual a mulher tem papel inferior e de total dependência e submissão ao homem. Este modelo, ressalta a consultora em desenvolvimento e liderança feminina, afeta a imagem que toda a sociedade tem em relação ao que caberia a um homem ou a uma mulher fazer. “Na divisão do trabalho, o homem ainda é associado à esfera produtiva e ao trabalho remunerado, enquanto à mulher é relacionada à esfera reprodutiva, cabendo a ela cuidar do lar e da família. E o pior, veem essa divisão como natural, sendo que, de fato, é determinada por aspectos sociais, culturais e políticos de cada época”, diz.

Vivendo em uma sociedade inteiramente definida a partir de valores masculinos, aponta Daniela, fica muito difícil até mesmo para as mulheres acreditarem que a elas cabe mais do que esses papeis preestabelecidos. Fazendo referência ao prefácio escrito pela psicoterapeuta e mitologista norte-americana Maureen Murdock, para a versão brasileira, de 2020, do livro “A jornada da heroína”, a consultora em desenvolvimento e liderança feminina ressalta que muitas mulheres, desde a infância, sentem-se invisíveis e inferiores, o que dificulta o desenvolvimento de seu pleno potencial.

Assim, enfatiza Daniela, para que as mulheres se sintam fortalecidas na luta diária para se provarem líderes capazes é fundamental que tenham plena consciência de que o problema na maioria das vezes não está nelas, mas na visão que a sociedade têm sobre qual deve ser o papel feminino no mercado de trabalho. Às empresas de um modo geral, a consultora em desenvolvimento e liderança feminina faz um apelo: “a cultura organizacional deve levar em conta a dinâmica do gênero se não quiser favorecer o preconceito e a dificuldade de ascensão feminina na carreira”.

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